Por que o Papa visitar um país com apenas 570 católicos? Não seria perda de tempo?

Por que o Papa visitar um país com apenas 570 católicos? Não seria perda de tempo?

Por Gilberto Cunha

Estive acompanhando a viagem que o Papa Francisco realizou neste fim de semana à Geórgia e ao Azerbaijão. Essa viagem complementa uma anterior que o Papa realizou à Armênia em junho deste ano.

Os três países estão numa região denominada de Cáucaso, afetada pelo conflito da Síria. Além disso, Armênia e Azerbaijão historicamente estão em conflito e não mantém boas relações diplomáticas. Em abril deste ano romperam um cessar-fogo de mais de 20 anos, fazendo com que a situação ficasse ainda mais delicada e causando preocupação à comunidade internacional…

Considerando este breve contexto, o Papa Francisco falou durante seus três dias de visita sobre muitos temas: paz entre as nações, unidade no amor entre os povos e religiões, a necessidade de diálogo, o perdão, deixar-se consolar por Deus e consolar, fazer-se pequeno, o papel das religiões em ajudar nestes conflitos e acompanhar o homem na busca do sentido da vida, o valor do matrimônio, o perigo da teoria do gênero, a necessidade de estar firmes na fé, a caridade e tantos outros…

Como vocês veem são muitos temas e de uma riqueza muito grande. Fazer uma análise mais profunda de tudo o que ele falou em sua visita seria muito extenso. Recomendo se puderem dar uma conferida nas mensagens e Homilias.

Queria centrar nossa breve reflexão sobre uma pergunta que o Papa Francisco mesmo se fez e respondeu de forma improvisada no final da Missa celebrada na Igreja da Imaculada em Baku, no último domingo no Azerbaijão. Posteriormente volta a tocar este tema na coletiva de imprensa, no regresso ao Vaticano:

Azerbaijão é um país que creio que 96 ou 97 por cento são muçulmanos, cerca de 10 milhões, os católicos são no máximo 600, poucos. E por que vou aí? Pelos católicos, para ir à periferia de uma comunidade católica, próprio da periferia, pequena.

Hoje na Missa lhes disse que me faziam lembrar da comunidade periférica de Jerusalém fechada no cenáculo, esperando o Espírito Santo, esperando poder crescer, sair.

A realidade se entende melhor e se vê melhor desde a periferia que do centro, é por isso que elegi isso.

Neste país de cerca de 570 católicos existe apenas uma paróquia e um centro pastoral.  A origem desta comunidade relativamente jovem foi contada Cardeal Filoni, Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos:

O início da pequena comunidade católica neste país remonta um pouco ao tempo de São João Paulo II, quando, após a queda do Muro de Berlim, algumas famílias escreveram ao Papa dizendo: “uma vez éramos uma comunidade”, no sentido que o comunismo tinha praticamente cancelado todas as igrejas, e os poucos cristãos que sobreviveram estavam dispersos: por que o senhor não nos envia um sacerdote?,  foi o pedido. JPII enviou um e então teve início a missão; foram encarregados os salesianos. Portanto, uma Igreja relativamente jovem em um país de raízes cristãs muito antigas. Hoje neste país há liberdade religiosa, de culto, e, assim, há muito a ser feito e construído.

Voltando à pergunta do Papa Francisco. Ele decidir visitar este país mostra coerência com o que o Espírito tem suscitado no seu coração e que tem promovido durante todo o seu Magistério: gerar a cultura do encontro, ir às periferias, estar ao lado dos mais frágeis, onde pode tocar a carne de Cristo e ajudar a curar as feridas.

No caso destes países há muitas feridas abertas, uma grande necessidade de paz, de perdão, de unidade e de reconciliação.   Portanto, aceitar o convite dos chefes de Estado e dedicar tempo a esses países de minoria católica, considero mais um dos grandes gestos de Francisco, um gesto concreto de amor e misericórdia. E atende perfeitamente à forma de atuar de Jesus: deixa as 99 e vai ao encontro da ovelha mais frágil, que está perdida, mais necessitada. (ver Lc 15)  Para Deus importa cada pessoa!

Concluo a nossa breve reflexão pedindo orações pelos frutos desta viagem e deixando um breve trecho da mensagem do Papa durante a Missa na Igreja da Imaculada, onde nos fala de duas coisas necessárias para a nossa vida cristã:

Somente duas coisas são necessárias: naquela comunidade havia a Mãe – nunca esquecer a Mãe! – e naquela comunidade havia caridade, o amor fraterno que o Espírito Santo derramou neles! Em frente! Sem medo, em frente!

 

Fontes:

Rádio Vaticano

Aciprensa – cobertura especial da viagem

Site oficial do Vaticano (cobertura da Viagem Apostólica do Papa Francisco à Geórgia e ao Azerbaijão)  

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