«Eis o Cordeiro de Deus»
I. LEITURAS DO DIA
Leitura do primeiro livro de Samuel 3, 3b-10.19
«3b.Samuel repousava no templo do Senhor, onde se encontrava a arca de Deus. 4. O Senhor chamou Samuel, o qual respondeu: “Eis-me aqui”. 5. Samuel correu para junto de Eli e disse: “Eis-me aqui: chamaste-me”. “Não te chamei, meu filho, torna a deitar-te”. Ele foi e deitou-se. 6. O Senhor chamou de novo Samuel. Este levantou-se e veio dizer a Eli: “Eis-me aqui, tu me chamaste”. “Eu não te chamei, meu filho, torna a deitar-te”. 7. Samuel ainda não conhecia o Senhor; a palavra do Senhor não lhe tinha sido ainda manifestada. 8. Pela terceira vez o Senhor chamou Samuel, que se levantou e foi ter com Eli: “Eis-me aqui, tu me chamaste”. Compreendeu então Eli que era o Senhor quem chamava o menino. 9. “Vai e torna a deitar-te”, disse-lhe ele, “e se ouvires que te chamam de novo, responde: Falai, Senhor; vosso servo escuta!” Voltou Samuel e deitou-se. 10. Veio o Senhor pôs-se junto dele e chamou-o como das outras vezes: “Samuel! Samuel!” “Falai”, respondeu o menino; “vosso servo escuta!”19. Samuel crescia, e o Senhor estava com ele. Ele não negligenciava nenhuma de suas palavras.».
Sal 39, 2.4.7-10: “Aqui estou, Senhor, para fazer sua vontade”
«2. Esperei no Senhor com toda a confiança. Ele se inclinou para mim, ouviu meus brados, 4. pôs-me nos lábios um novo cântico, um hino à glória de nosso Deus. Muitos verão essas coisas e prestarão homenagem a Deus, e confiarão no Senhor. 7. Não vos comprazeis em nenhum sacrifício, em nenhuma oferenda, mas me abristes os ouvidos: não desejais holocausto nem vítima de expiação. 8. Então eu disse: Eis que eu venho. No rolo do livro está escrito de mim: 9. fazer vossa vontade, meu Deus, é o que me agrada, porque vossa lei está no íntimo de meu coração. 10. Anunciei a justiça na grande assembleia, não cerrei os meus lábios, Senhor, bem o sabeis.»
Leitura da primeira carta de São Paulo aos Coríntios 6,13c-15a.17-20
« 3c.O corpo, porém, não é para a impureza, mas para o Senhor e o Senhor para o corpo: 14. Deus, que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará a nós pelo seu poder. 15. Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo? 17. Pelo contrário, quem se une ao Senhor torna-se com ele um só espírito. 18. Fugi da fornicação. Qualquer outro pecado que o homem comete é fora do corpo, mas o impuro peca contra o seu próprio corpo. 19. Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual recebestes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis? 20. Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo.».
Leitura do santo Evangelho segundo São João 1, 35-42
«35. No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois dos seus discípulos. 36. E, avistando Jesus que ia passando, disse: Eis o Cordeiro de Deus. 37. Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. 38. Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras? 39. Vinde e vede, respondeu-lhes ele. Foram aonde ele morava e ficaram com ele aquele dia. Era cerca da hora décima. 40. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que o tinham seguido.
41. Foi ele então logo à procura de seu irmão e disse-lhe: Achamos o Messias (que quer dizer o Cristo). 42. Levou-o a Jesus, e Jesus, fixando nele o olhar, disse: Tu és Simão, filho de João; serás chamado Cefas (que quer dizer pedra).».
II. APONTAMENTOS
As leituras deste Domingo expõem o tema da vocação. Nosso termo “vocação” vem da palavra latina vocare, que significa chamar. Assim, quando falamos de vocação, temos que entender que Deus chama alguém convidando-o a cumprir uma determinada missão no mundo.
Na primeira leitura deparamo-nos com o relato da vocação do profeta Samuel, que Deus reiteradamente chama por seu nome enquanto dorme. Samuel tinha sido entregue por sua mãe a Eli, para servir a Deus. A princípio o jovem vai até Eli, pensando que é o velho sacerdote quem o chama, até que Eli recomenda que ele responda: «Falai, Senhor, vosso servo escuta!» (1 Sam 3, 10). Com esta resposta Samuel responde a Deus, manifestando estar disposto a fazer o que Ele lhe pedir. É assim que «O Senhor chamou Samuel, o qual respondeu: Eis-me aqui.» (1Sam 3, 4).
Também o salmo responsorial fala da resposta do convocado à voz e aos desígnios de Deus: «Eis que eu venho — como está escrito no livro — fazer vossa vontade, meu Deus» (Sal 39, 8.9). Neste caso tratar-se-ia do Messias, anunciado por Deus nos livros proféticos. Seria a resposta do Filho ao Pai Eterno, quando o incumbe de levar a cabo seus desígnios reconciliadores no mundo. Sua resposta é de uma obediência exemplar: «Não vos comprazeis em nenhum sacrifício, em nenhuma oferenda,… então eu digo: “Eis que eu venho…. fazer vossa vontade, meu Deus,”».
É o Messias, o Filho de Deus feito Filho de Mulher (ver Gal 4,4), que está sendo procurando por dois jovens inquietos (Evangelho). Estes jovens encarnam a esperança do povo eleito. Com efeito, Israel esperava o Messias prometido por Deus, e a expectativa de sua pronta chegada tinha crescido desde que João Batista tinha começado a pregar à beira do Jordão: «Preparem o caminho do Senhor, aplainem seus atalhos». O Batista, de quem estes dois jovens eram discípulos, inclusive o indicou já presente, na pessoa de Jesus de Nazaré, que tinha ido a ele para ser batizado no Jordão: «Eis o Cordeiro de Deus».
Cordeiro em aramaico se diz talya e se usa tanto para designar um cordeiro como também um servo ou servidor (ver Is 53,7). Com esta designação o Batista dá a entender que Jesus é não só o cordeiro pascal cujo sacrifício e sangue derramado libertará o mundo do peso do pecado e do poder da morte (ver Ex 12,1 ss), como também é o Servo de Deus por excelência, tal como é apresentado por Isaías nos “cânticos do servo” (ver Is 42; 49; 50,4ss; 52,13-53).
Ao escutar João falar de Jesus deste modo, os dois discípulos foram atrás Dele, seguindo-O a certa distância. Em um momento o Senhor se volta e lhes pergunta: «Que procurais?» Esta é a tradução exata do grego, cujo verbo zeteo significa procurar algo com intensidade. O Senhor, que conhece os corações, sabe que o que leva estes dois jovens a segui-lO é um intenso desejo de encontrar o Messias prometido por Deus.
Surpreendidos aqueles jovens parecem não responder à indagação do Senhor e perguntam por sua vez: «Onde moras?». Talvez pudéssemos descobrir nesta pergunta um pedido velado para que os levasse a sua casa, quer dizer, para que os acolhesse em sua intimidade, para que lhes falasse Dele, de sua doutrina, de sua mensagem, de seu modo de vida. Aquele «onde moras?» não é uma maneira de fugir da pergunta do Senhor nem uma mera curiosidade sobre o lugar físico onde morava o Senhor, equivale melhor a um “mostre-nos quem és, pois queremos te conhecer, queremos saber se você é Aquele a quem estamos procurando intensamente”.
«Vinde e vede», responde o Senhor. Em outras palavras lhes diz: “venham comigo e lhes mostrarei quem Sou eu”.
O encontro daquela tarde deve ter sido realmente fascinante, muito intenso, pois o impacto que causou naqueles jovens foi tremendo. Por isso, depois do encontro, a primeira coisa que fazem é ir correndo procurar por Pedro, irmão de um deles, para compartilhar com ele sua importantíssima descoberta: «Achamos o Messias!» Encontrar Aquele a quem andavam procurando intensamente, achar quem era o motivo de suas esperanças e expectativas, tinha enchido seus corações de um imenso júbilo que precisava difundir-se e compartilhar-se imediatamente, levando também outros ao encontro com Aquele que responde à busca mais profunda de todo ser humano, a seus desejos de salvação e felicidade: «levou-o a Jesus».
Esse foi o primeiro encontro inesquecível de André, João e Pedro com o Senhor.
Sim, mencionamos João, pois embora o evangelista só cite André e Pedro, o mais provável é que com eles estivesse o próprio evangelista. São eles, junto com outros Apóstolos, que escutarão mais adiante aquele chamado do Senhor, aquele “vem e siga-me” ao qual também eles, vencendo seus próprios temores e medos, responderão com um firme e decidido “aqui estou, Senhor; seguir-te-ei aonde vá; envia-me aonde queira, para anunciar seu Evangelho”.
III. LUZES PARA A VIDA CRISTÃ
Este episódio na vida destes dois jovens nos fala de uma realidade profunda que cada um de nós pode descobrir também em si mesmo: sou um buscador, estou em uma busca incessante. O que procuro? além de todas as buscas superficiais, além de procurar alcançar minhas metas, ambições ou aspirações pessoais, procuro algo mais profundo, procuro quem me ajude a me compreender, a compreender o sentido de minha existência, minha identidade, para que respondendo àquilo que sou possa chegar a ser feliz. Sim! Quero ser feliz! E é por isso que ando em uma contínua busca para saber quem sou, qual é o sentido de minha existência, qual minha missão no mundo, qual meu destino depois de minha morte, e meu coração estará inquieto enquanto não achar a resposta que está procurando. Certamente na vida diária acabamos ficando distraindo com muitas outras buscas, tão superficiais, embora no fundo de todas aquelas buscas esteja aquela que acarreta consciente ou inconscientemente todas as demais.
Muitos, oprimidos por seus sofrimentos, experiências negativas e frustrações, já não esperam nada “da vida” e abandonaram a busca daquele que verdadeiramente lhes fará felizes. Não acreditam em Deus nem esperam nEle. Procuram “passá-la bem” e “desfrutar do momento” enquanto possam e como podem, mas no fundo não fazem mais que viver uma amargura e infelicidade crescente, aparentando por fora que tudo vai bem. São pessoas como estas que ensinam a seus filhos — como se fosse uma verdade incontestável — que “a felicidade não existe”. Quantos jovens escutam dos lábios de seus próprios pais que a única coisa que encontrarão na vida é, no máximo, um momento fugaz de alegria ou prazer! São os que fracassaram em sua busca que querem impor aos outros sua frustração, matando neles toda esperança de achar a felicidade em suas vidas. Infelizmente muitos jovens já assumem essa “verdade” e pensam como aqueles que nunca tiveram a coragem, a ousadia e a fiel perseverança para seguir o Senhor para encontrar nele essa felicidade que todo ser humano precisa encontrar.
Perante tantos que já não acreditam que o ser humano possa ser feliz, nós sustentamos serenamente que «O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar» (Catecismo da Igreja católica, 27). Sim, em Deus e na comunhão com Ele e nele com seus seres amados o ser humano encontrará sua plena realização e felicidade.
Por outro lado, frente ao fracasso de tantos nessa busca essencial nos alenta o exemplo e o testemunho daqueles que, tendo encontrado com Cristo e seguindo-O de perto fielmente, encontraram nEle a fonte da felicidade humana que tanto andavam procurando. É em quem triunfou, e não em quem fracassou, que se tem que escutar e acreditar, cujo exemplo teremos que seguir! Como não pensar, por exemplo, no impactante testemunho e exortação que o grande Papa João Paulo II dirigiu a todos, especialmente aos jovens, no próprio leito de morte: “Sou feliz, sejam-no também vocês!”?
Também a ti, que é um buscador, que é uma buscadora, o Senhor — que sabe de sua intensa e incessante busca — diz hoje: «vinde e vede». Terá você a audácia de segui-lO? Você terá o valor de acompanhá-lo e de permanecer com Ele, de segui-lO aonde Ele te levar?
Abandonar o seguimento de Cristo é abandonar a busca da verdadeira felicidade para passar a preencher esses desejos de Infinito com sucedâneos que nos frustram cada vez mais, com prazeres que só enganam momentaneamente, com vaidades que camuflam nossos vazios, com adrenalinas ou drogas que reclamam doses cada vez mais altas. Tenhamos a coragem e o valor de procurar saciar os desejos mais profundos de nosso coração humano ali onde poucos se atrevem! Sigamos com firmeza e confiança o “Cordeiro de Deus”! Peçamos-lhe, no calor da oração perseverante, que nos leve a sua casa, à intimidade de seu Coração!
Que cada dia seja para nós uma ocasião para nos renovar nessa busca intensa, com a plena certeza e confiança de que Ele sai ao encontro e se deixa encontrar por aqueles que o buscam com sincero coração: «Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo.» (Ap 3,20).
IV. PADRES DA IGREJA
São João Crisóstomo: «Mas Jesus Cristo não lhes dá sinais de sua casa, nem lhes designa lugar algum, mas sim unicamente os atrai para que lhe sigam, manifestando-lhes que já os aceitou. E não disse: agora não é tempo, amanhã saberão se algo querem aprender; mas sim os trata como amigos familiares, como se tivessem vivido com Ele longo tempo. E como é que São Mateus e São Lucas dizem: “O Filho do homem não tem onde reclinar sua cabeça” (Mt 8,20), e Este diz: “Venham e vejam onde moro”? Quando Jesus disse que não tinha onde reclinar sua cabeça deu a entender que não tinha casa própria e não que carecia de domicílio. Segue, pois: “Eles foram, viram onde morava, e ficaram com Ele aquele dia”. Não acrescenta o Evangelista com que fim ficaram, porque certamente se compreende que foi para ouvir sua doutrina».
Santo Agostinho: «Escutando estas palavras [do Batista], os dois discípulos que estavam com João seguiram Jesus. “Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: Que procurais?’ Eles lhe responderam: ‘Rabi (que significa Mestre), onde moras?’” E ainda não o seguiram de maneira definitiva; sabemos que seguiram-no quando lhes chamou para que deixassem seus barcos…, quando lhes disse: “Vinde após mim e vos farei pescadores de homens.” (Mt 4,19). É a partir deste momento que o seguiram e já não o deixaram nunca mais. No momento queriam ver onde Jesus morava, e pôr em prática esta palavra da Escritura: “Se vires um homem sensato, madruga para ir ter com ele, desgaste o teu pé o limiar de sua porta. Concentra teu pensamento nos preceitos de Deus, sê assíduo à meditação de seus mandamentos. ” (Eclo 6,36-37 a.). Jesus, pois, ensinou-lhes onde morava; vieram e ficaram com ele. Que dia mais ditoso passaram! Que noite mais feliz! Quem nos dirá o que escutaram da boca do Senhor? Também nós podemos construir uma mansão em nosso coração, construamos uma casa na qual Cristo possa vir para nos ensinar e conversar conosco».
São João Crisóstomo: «“Oh, como é bom, como é agradável para irmãos unidos viverem juntos.” (Sl 132,1) André, depois de ter permanecido junto a Jesus (Jo 1,39) e ter aprendido muito não guardou este tesouro para si. Apressa-se e corre até seu irmão Simão Pedro para lhe fazer partícipe dos bens que ele tinha recebido. Pense no que André disse a seu irmão: “encontramos o Messias (que quer dizer Cristo)” (Jo 1,41). Você se dá conta do fruto dos ensinamentos que ele aprendeu em tão pouco tempo? Isso demonstra, portanto, a autoridade do Mestre que ensinou a seus discípulos e, desde os começos, o zelo deles por conhecê-lO».
»A pressa de André, seu zelo por difundir a boa notícia logo a seguir, supõe uma alma ardorosa ao ver o cumprimento de tantas profecias referidas a Cristo. Mostra uma amizade verdadeiramente fraterna, um afeto profundo e uma forma de ser muito sincera, ao comunicar assim as riquezas espirituais… “encontramos ao Messias”, diz, “não um Messias qualquer, mas sim o Messias que esperávamos”».
V. CATECISMO DA IGREJA
Encontramos ao Messias
436 Cristo vem da tradução grega do termo hebraico “Messias”, que quer dizer “ungido”. Só se toma o nome próprio de Jesus porque este leva à perfeição a missão divina que significa. Com efeito, em Israel eram ungidos em nome de Deus os que lhe eram consagrados para uma missão vinda dele. Era o caso dos reis, dos sacerdotes e, em raras ocasiões, dos profetas. Esse devia ser por excelência o caso do Messias que Deus enviaria para instaurar definitivamente seu Reino. O Messias devia ser ungido pelo Espírito do Senhor ao mesmo tempo como rei e sacerdote, mas também como profeta. Jesus realizou a esperança messiânica de Israel em sua tríplice função de sacerdote, profeta e rei.
437 O anjo anunciou aos pastores o nascimento de Jesus como o do Messias prometido a Israel: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu-vos um Salvador que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). Desde o inicio Ele é “aquele que o Pai consagrou e enviou ao mundo” (Jo 10,36), concebido como “Santo” no seio virginal de Maria. José foi chamado por Deus “a receber Maria, sua mulher”, grávida “daquele que foi gerado nela pelo Espírito Santo” (Mt 1,21), para que Jesus, “que se chama Cristo”, nascesse da esposa de José na descendência messiânica de Davi (Mt 1,16).
438 A consagração messiânica de Jesus manifesta sua missão divina. “É, aliás, o que indica seu próprio nome, pois no nome de Cristo está subentendido Aquele que ungiu, Aquele que foi ungido e a própria Unção com que ele foi ungido dado: Aquele que ungiu é o Pai, Aquele que foi ungido é o Filho, e o foi no Espírito, que é a Unção.” Sua consagração messiânica eterna revelou-se no tempo de sua vida terrestre, por ocasião de seu Batismo por João, quando “Deus o ungiu com o Espírito Santo e poder” (At 10,38), “para que ele fosse manifestado a Israel” (Jo 1,31) como seu Messias. Por suas obras e palavras será conhecido como “o Santo de Deus”.
439 Numerosos judeus e até certos pagãos os que compartilhavam a esperança deles reconheceram em Jesus os traços fundamentais tais do “Filho de Davi” messiânico, prometido por Deus a Israel. Jesus aceitou o título de Messias ao qual tinha direito, mas com reserva, pois este era entendido por uma parte de seus contemporâneos segundo uma concepção demasiadamente humana, essencialmente política.
440 Jesus acolheu a profissão de fé de Pedro, que o reconhecia como o Messias anunciando a Paixão iminente do Filho do Homem. Desvendou o conteúdo autêntico de sua realeza messiânica, seja na identidade transcendente do Filho do Homem “que desceu do Céu” (Jo 3,13) seja em sua missão redentora como Servo sofredor: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate pela multidão” (Mt 20,28). Por isso o verdadeiro sentido de sua realeza só se manifestou do alto da Cruz. É somente após sua Ressurreição que sua realeza messiânica poderá ser proclamada por Pedro diante do povo de Deus: “Que toda casa de Israel saiba com certeza: Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus que vós crucificastes” (At 2,36).
VI. PALAVRAS DE LUIS FERNANDO (conforme textos publicados em espanhol, tradução livre para o português)
«[...] Acima de tudo amando o Senhor, deixando que Ele nos encontre quando assim o decidir. Buscai-O, incansáveis como os discípulos; aqueles que escutando que João dizia “esse é o Cordeiro de Deus”, com prontidão, como Maria também nos ensina, seguiram-no.
»O Senhor, sempre respeitando a liberdade alheia, pergunta, mais por eles do que por Ele: O que vocês querem? Quer dizer: o que procuram? por que me seguem? E eles, repletos de seu afã de busca lhe respondem: “Mestre, onde moras?” E a resposta do Senhor não demorou: “Venham e vejam”.
»Já em várias ocasiões repeti que o Evangelho segundo São João tem muitos sentidos riquíssimos. Aprofunda-se, e quando se pensa ter esgotado algo, o Espírito, sem o qual não se pode clamar “Abbá, Pai”, vai mostrando que o horizonte se prolonga. Quão formoso é o Evangelho! Que vital! Que entendimento poderá esgotá-lo!
»Nesta ocasião tais cenas de busca, de chamado, de seguimento, sem deixar de ser reais, são também um modelo de procedimento do Senhor. É assim que Ele chama. Por isso tem-se que estar atentos aos sinais. Essa é uma das razões que torna tão importante a maestria no silêncio. O que teria acontecido se a Virgem Maria, cuja liberdade respeita o Senhor, não tivesse estado atenta à mensagem? É uma bênção que isso seja uma incógnita que não teremos que decifrar. A realidade dos acontecimentos foi outra. Louvado seja Deus, Nosso senhor!
»Onde moras? Os até então discípulos de São João Batista escutaram o profeta e sem demoras seguiram Aquele que ele indicava. “É esse”. O arauto do Senhor Jesus vai cumprindo sua missão. Os discípulos a sua. Veem a luz. Recebem a revelação. Confiam. A Igreja, Corpo Místico do Senhor concebida também no sacrossanto e virginal ventre materno, vai tornando-se povo concreto, o Povo de Deus. Esses discípulos são algumas das primeiras rochas vivas que se vão somando ao templo que é a Igreja. O onde moras é eloquente. Expressavam seu desejo de encontrar-se com ele, aprender de sua pessoa, seus ensinamentos, confraternizar.
»“Vinde e vede”. É toda uma modalidade de encontro que nos é ensinada pelo Senhor Jesus com sua resposta. Diante da boa disposição dos discípulos de João, diz-lhes: vinde! Poder-se-ia dizer: sigam-me. Está insinuada a sequela Christi, o seguimento do Senhor.
»Quem O segue, quem vai para Ele, quem caminha com Ele: verá. Os relatos de Emaús e do Cego de nascença (Jo 9) vêm à mente. Compartilhando com Jesus o entendimento, os olhos se abrem. “Venha”, veja e siga-me. Eu te ensinarei.
»A figura da “casa”, “moradia”, aparece implícita na pergunta, embora pudesse ser simplesmente um lugar. De todas as formas, o lugar de residência de Jesus nos faz recordar outra casa. Quando meditamos a transcendental passagem do Testamento do Senhor no qual nos revela o dom da filiação a nossa Santa Mãe, recordamos também que o Evangelho, assinala: “Desde aquele momento o discípulo a levou para sua casa”. Não poucas vezes se interpretou o símbolo “casa” como coração. Quanta luz se pode tirar destas metáforas e figuras! É necessário abrir o nosso coração ao Senhor, aprender com os batimentos do coração de seu Sacratíssimo Coração. Isso é, na verdade, seguir depois dela.
»De todas as formas, o Senhor lhes diz que o verão ao segui-lO. É todo um processo pedagógico, um método de descobrimento. Hoje falamos de “encontro”, e fazemos bem. São muito belas as passagens da Ecclesia in America que nos falam do encontro. São passagens para ler e voltar a fazê-lo de tempos em tempos. O encontro é uma dimensão existencial que implica muitas coisas. Acima de tudo está a dimensão pessoal, de confiar, de seguir o Senhor, o Rabino como o chamam os discípulos nesta ocasião.
»O Senhor Jesus é uma pessoa, e só seguindo-o descobrimos quem é na verdade. É óbvio que os argumentos racionais e a doutrina fazem parte do encontro, e são de suma importância para orientar o próprio caminhar, mas, assim como são imprescindíveis no sentido de amadurecimento do encontro, não o substituem em sua dimensão pessoal, existencial. É Jesus mesmo quem diz de si: EU sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Trata-se do encontro com uma pessoa real.
»Não são os argumentos e os jogos dialéticos que levam a Jesus. Esses têm um grande valor como preâmbulos. Certamente são importantes como preparações, mas às vezes são convertidos por alguns em vãos entretenimentos da mente, e só isso. A chave está em que impulsionados pela busca daquilo que o nosso interior reclama, nossa mesmidade, busquemo-lO sem ceder à distração nem à fadiga. Para chegar a Jesus tem-se que ter a audácia de buscá-lO. E, uma vez que tenhamo-lO achado, a audácia de segui-lO».
