Caminho para Deus 152 – Deus não tira nada, Ele dá tudo

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Há alguns anos, quando o Papa João Paulo II inaugurava a III Conferência do Episcopado em Puebla, constatava que nossa época era aquela em que mais se tinha escrito sobre o homem, «a época dos humanismos e do antropocentrismo»[1].  Não faltava razão ao Santo Padre, que acrescentava que apesar desta crescente preocupação pelo ser humano, a nossa era também uma época «das mais profundas angústias do homem com respeito a sua identidade e destino, do rebaixamento do homem a níveis antes insuspeitados, época de valores humanos  conculcados[2] como jamais o foram antes»[3].

Não é novidade para ninguém que hoje o homem erigiu a si mesmo como o centro de toda a realidade.  Nesse movimento, cujas raízes filosóficas remontam ao Renascimento e chegaram ao auge com o Iluminismo, o homem pouco a pouco foi deixando Deus de lado. Cada vez mais ciumento de seus espaços, de suas comodidades, de uma vida marcada pelo hedonismo, cada vez mais os homens e mulheres de hoje temem qualquer realidade que, ainda que aparentemente, possa significar uma redução em sua liberdade.  É evidente que ninguém quer ver sua liberdade diminuída, nem ninguém quer um mal para si mesmo.  Mas de que liberdade se fala? O engano está precisamente na concepção de liberdade, que, por sua vez, parte de uma concepção errada do homem.

Deus não tira nada…

Naquela ensolarada manhã de 24 de abril de 2005 em que inaugurava seu Pontificado, o Papa Bento XVI abordava por outra perspectiva esta mesma problemática tão freqüente na mentalidade dos homens e mulheres de nosso tempo.  Diante de uma Praça de São Pedro abarrotada de peregrinos de diversos lugares do mundo, o Santo Padre quis, ao final de sua homilia, dirigir-se de modo especial aos jovens, mas com palavras que sem dúvida tocaram o coração de todos os presentes por sua grande carga testemunhal: «eu gostaria com grande força e convicção, partindo da experiência de uma longa vida pessoal, de vos dizer hoje, queridos jovens: não tenhais medo de Cristo! Ele não tira nada, ele dá tudo »[4].

Com suas palavras o Pontífice chamava a atenção sobre uma idéia hoje muito presente na mentalidade moderna.  Para muitos que não conhecem a fé, e inclusive, infelizmente, para muitos cristãos, um seguimento mais próximo e coerente do Senhor Jesus pareceria implicar em uma renúncia a uma parte preciosa de sua identidade.  As exigências da fé aparecem como uma carga muito pesada, inclusive às vezes aparentemente contra a natureza humana.  O caminho para seguir a Cristo passaria então por umas renúncias muito custosas, muito pesadas para uma mentalidade que exalta o homem e tudo o que está relacionado com ele a limites nunca vistos.  Quanto se teme hoje, por exemplo, o sofrimento, quanto medo há de assumir um compromisso, quanto se foge de relações profundas que impliquem uma doação.  Em tudo isso aparece uma concepção do homem que deixou Deus de lado, e que erigida como única realidade, superdimensiona tudo aquilo que “restringe” as possibilidades de escolha.

Como apontávamos mais acima, esta trágica situação tem suas raízes em uma concepção equivocada do homem.  Já refletimos muitas vezes sobre aquele ensinamento fundamental da Gaudium et spes, que nos recorda que é o Senhor Jesus quem revela a identidade do homem ao próprio homem[5].  Fomos feitos à imagem e semelhança de Deus [6], e em Cristo encontramos nossa identidade mais profunda.  Ele é Caminho, Verdade e Vida [7], e é nos configurando com Ele como chegamos a ser plenamente humanos.  Não se trata só de um conhecimento teórico de quem somos como pessoas, mas de algo muito mais profundo, mais existencial, ligado à experiência de viver em autenticidade e liberdade.  Isto só se dá na medida em que colaboramos com a graça para nos assemelhar cada vez mais, dia a dia, ao Senhor Jesus.

Despojarmo-nos do homem velho

Sabemos bem, como dizia o Apóstolo Paulo, que neste caminho é necessário viver aquele “despojar-se” e “revestir-se” para obter aquela configuração com o Senhor Jesus à qual estamos chamados.  Muitos ficam somente naquele “despojar-se”, e isso tem sabor de renúncia de algo propriamente humano.  Por que a Igreja não me deixa fazer isto?  Por que a Igreja não me deixa fazer aquilo outro?  Possivelmente nós mesmos mais de uma vez caímos neste erro de concepção em relação aos ensinamentos da Igreja.  Certamente o Apóstolo nos chama a “nos despojarmos” de certas coisas: «Despojemo-nos das obras das trevas»[8], pede ao dirigir-se aos Romanos, e também nos chama, na Carta aos Efésios, a nos despojarmos « do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras.»[9].  Quando escreve aos Colossenses assinala: «Vós vos despistes do homem velho com os seus vícios»[10].

É claro, pois, que aquilo que nos pede abandonar, aquilo do qual temos que nos despojar, é todo hábito ou costume que nos impeça de seguir mais de perto o Senhor, e portanto, de tudo aquilo que obstaculiza esse caminho de plenitude.  Recordando as palavras do Papa, Deus «não tira nada», mas sim nos convida a irmos nós mesmos, através do reto uso de nossa liberdade, abandonando tudo aquilo que nos faz menos humanos, para , precisamente, irmo-nos configurando com o Senhor Jesus, o modelo de plena humanidade, e portanto irmo-nos tornando mais humanos.  Não há nenhuma renúncia, nenhuma exigência da fé, que não aponte a esta dimensão.  Toda opção por algo significa deixar de lado outras possibilidades.  Isto é algo elementar.  Neste caso se trata, portanto, nem tanto de uma “renúncia” mas sim de uma opção positiva por aquele supremo bem.  Ter isto claro é fundamental para assumir sem medos as provocações que nossa vida de fé nos propõe, e que nos encaminham no rumo da autêntica felicidade humana, que nos leva para o gozo definitivo que se vive na Comunhão Divina de Amor.

Ele nos dá tudo

Os ensinamentos do Senhor Jesus não são só critérios morais ou mandamentos “externos” que devamos seguir.  Como vimos, são algo muito mais profundo e mais formoso, são autêntico caminho para que possamos ir avançando para nossa plena humanização.  A autêntica vocação do homem, a mais humana, a que mais se ajusta a sua natureza, é a vocação divina, o chamado a ser filhos no Filho e poder assim gozar da Comunhão Divina de Amor[11].  Por isso podemos dizer com gozo e alegria que “Ele nos dá tudo”.  Esse “nos ter dado tudo” não são somente palavras bonitas.  Basta nos determos um momento para considerar as inumeráveis maneiras em que estas palavras se fazem realidade e tocam nossa vida cotidiana.

Deus nos dá isso tudo através de seu Filho, que deu sua vida inteira para nos salvar, entregando-se até a morte, e morte de Cruz [12].  Na entrega de seu Filho Unigênito, Deus nos manifesta seu amor infinito.  Além disso, quis que seu Filho permanecesse presente conosco através da Eucaristia.  A presença real de Cristo na hóstia consagrada nos recorda sua entrega total, e é aí onde se encontra Cristo presente de modo mais eminente.  Ele nos acompanha constantemente com sua graça, que é sua própria vida, que nos sustenta e fortalece e é auxílio em todo momento.  É colaborando com a graça divina que vamo-nos configurando com o Senhor Jesus, nos fazendo plenamente humanos.  Ele nos deu a Igreja, através da qual dispensa sua graça, e que custodia o tesouro da fé, aquelas verdades reveladas que nos abrem à verdade de Deus e de nós mesmos, e que nos conduzem por caminho seguro ao encontro definitivo com Deus.  Na Igreja, além disso, encontramos a companhia e a acolhida, uma comunidade viva que nos recorda que não andamos sozinhos por esta vida, e na qual sempre há uma ajuda fraterna e solícita.  Deu-nos de presente também o testemunho dos Santos, modelos de vida cristã que nos ajudam em nosso próprio caminhar.  E também, de maneira particular, o formoso dom que significa para todo cristão a presença maternal de Santa Maria, que nos conduz ao encontro com seu Filho.

Poderíamos encher esta lista e continuar enumerando os dons que Deus deu a todos.  Cada um pode também ver em sua própria vida, com um pouco de silêncio, as ocasiões em que Deus saiu ao seu encontro de múltiplas maneiras, e ter a certeza de que esteve presente inclusive nos momentos mais difíceis.  Deus quer que nos salvemos, é parte de seu Plano que avancemos pelo caminho da vida cristã vivendo como «filhos no Filho»[13].

Usar corretamente nossa liberdade

Assinalávamos ao iniciar esta reflexão a importância da liberdade.  Precisamente muitos homens e mulheres de nosso tempo assumem que o cristianismo tolhe sua liberdade, sua capacidade de escolha.  A liberdade de escolha é uma característica inalienável da pessoa, mas o reto exercício da liberdade não significa a opção por qualquer realidade.  «Se a pessoa se fecha à verdade (…) se ela se escraviza à não-verdade, o momento de livre escolha será falso, só será tal enquanto mecanismo, enquanto operação, mas não o será em seu sentido definitivo.»[14].  Pelo contrário, uma decisão autenticamente livre é aquela que opta em sintonia com a própria natureza, portanto, aquela que nos faz mais humanos.  O exercício reto da liberdade sempre nos deve levar a uma configuração cada vez maior com o Senhor Jesus.  Deus nos convida a viver esta liberdade em ato, a experimentar a imensa felicidade que dá o optar cotidianamente, inclusive nas ocasiões mais singelas, por seu Plano de Amor.

No reto uso da liberdade, Santa Maria, a Mãe do Senhor Jesus, é paradigma que devemos seguir e imitar.  Ela, educando-se a escolher sempre segundo a Verdade, “educando-se para ser independente de toda força física, psíquica, ou material coativa”, avança para a unidade interior, respondendo ao que sua natureza mais autêntica reclama.  Assim vive em liberdade plena, em constante acolhida aos dons de Deus, e fazendo-os frutificar para seu próprio bem e o bem de tantos.  Seguindo o exemplo de Maria, aproximando-nos com todo o nosso ser de seu Filho, experimentaremos na verdade que «Ele não nos tira nada e nos dá tudo».  Esse “tudo” é o maior, o mais sublime, o mais formoso, o melhor, pelo qual vale a pena todo esforço.  Esse “tudo” é Deus mesmo que se dá a nós, e que nos chama insistentemente a participar de sua Comunhão Divina de Amor: « Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo »[15].

CITAÇÕES BÍBLICAS PARA A MEDITAÇÃO

  • O homem feito a imagem e semelhança de Deus: Gn 1,26.
  • Despojar-se dos obstáculos: Rm 13,12; Ef 4,22; Cl 3,9.
  • Ser livres do pecado: Gl 5,1.
  • Dá-nos isso tudo: Fl 2,8; Jo 19,28; Rm 8,31; 2Cor 12,9.
  • Convida-nos à filiação divina: Gl 4,6.
  • Convida-nos à comunhão: Ap 3,20.

PERGUNTAS PARA O DIÁLOGO

  1. O que significam as palavras do Santo Padre « Não tenhais medo de Cristo! Ele não tira nada, ele dá tudo»?
  2. Sou consciente que Deus me deu esse tudo através de seu Filho na Cruz? Que conseqüências isto tem para minha vida?
  3. O que é a autêntica liberdade? Estou usando retamente minha liberdade?
  4. Sou consciente que o reto exercício de minha liberdade se dá sempre na medida em que respondo ao Plano de Deus? Como estou exercendo minha liberdade em relação ao Plano de Deus?
  5. De que coisas concretas devo me despojar e do que me revestir?
  6. O que me ensina Santa Maria sobre a liberdade?


[1] João Paulo II, Discurso inaugural, Puebla, 28/1/1979, I,9.

[2] transgredidos

[3] Ali mesmo.

[4] Bento XVI, Homilía na Missa de inauguração de seu Pontificado, 24/04/2005.

[5] Gaudium et spes, 22.

[6] Gn 1,26.

[7] Jo 14,6.

[8] Rm 13,12.

[9] Ef 4,22.

[10] Cl 3,9.

[11] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 27.

[12] Fl 2,8.

[13] Cf. Gl 4,6.

[14] Luis Fernando Figari, Maria Paradigma de unidade, Fe, Lima 1992, p. 12.

[15] Ap 3,20.

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