Ainda há esperança!

Ainda há esperança!

Nessa semana vivemos dois extremos que permearam minhas reflexões. De um lado nos deparamos com a tragédia envolvendo o time da Chapecoense e as mais diversas manifestações de solidariedade e apoio a familiares, bem como a toda cidade de Chapecó.

Por outro lado, nos deparamos com a calamitosa situação de nosso país e a atitude vergonhosa daqueles que deveriam, em primeiro lugar, zelar pela justiça social e pelo bem comum. Dois extremos que apontam para o quanto o homem é capaz de ser bom e o quanto é capaz de permanecer em seu individualismo e egoísmo.

De fato, diante de tantos acontecimentos negativos que permeiam nosso dia a dia e são massivamente veiculados pela mídia podemos cair na desesperança. Não uma desesperança que possa ser considerada patológica como, por exemplo, àquela encontrada em casos mais graves do transtorno depressivo, mas uma desesperança existencial, se assim posso chama-la, que se manifesta em um egocentrismo e individualismo crescente.

Certamente que, diante de uma realidade tão ruim, muitas vezes podemos adotar a atitude defensiva de nos fechar em nós mesmos, lutando pelos nossos interesses ou daqueles mais próximos em detrimento do bem comum.

Tal atitude pode ser muito sutil e se manifestar em coisas pequenas, sendo certo que somente uma vigilante autoconsciência pode nos ajudar a não adentrar esse caminho do fechar-se em si mesmo, que vai contra um dos nossos dinamismos mais fundamentais: a autotranscedência. [1]

Há que se lutar contra essa desesperança. Há que se acreditar que, mesmo nas horas mais escuras e momentos de maior sofrimento, nos é dada a possibilidade de lutar pelo bem. Nesse sentido, acho relevante uma reflexão de Viktor E. Frankl [2].

Em um texto intitulado a “A tese do otimismo trágico”, Frankl afirma que nos campos de concentração as “diferenças individuais não se apagaram, mas, ao contrário, as pessoas ficaram mais diferenciadas; os indivíduos retiraram suas máscaras, tanto os porcos como os santos. E hoje não se precisa mais hesitar no uso da palavra santos. Basta pensar no padre Maximiliano Kolbe, que foi deixado passando fome e finalmente assassinado através de uma injeção de ácido carbólico em Auschwitz, e que, em 1983, foi canonizado” (p. 175) [3]

Por fim o psiquiatra austríaco termina: “Você pode estar inclinado a acusar-me de invocar exemplos que são exceções à regra. ‘Sed omnia praeclara tam difficilia quam rara sunt’ (mas tudo o que é grande é tão difícil de compreender quanto de encontrar”, conforme diz a última frase da Ética de Espinoza. Naturalmente, você pode perguntar se realmente precisamos referir-nos a ‘santos’. Não seria o suficiente referir-nos a pessoas decentes? É verdade que elas formam uma minoria. Mais que isso, sempre serão uma minoria. E, no entanto, vejo justamente neste ponto o maior desafio a que nos juntemos à minoria. Porque o mundo está numa situação ruim. Porém, tudo vai piorar ainda mais se cada um de nós não fizer o melhor que puder.” (p. 175) [4]

Façamos o melhor! Assim manteremos a esperança.

José Augusto Rento é psicólogo, Mestre em Psicologia e coordenador de Reconciliatio.

Notas

[1] A autotranscedência é um conceito abordado por diferentes filósofos. Aqui utilizo conforme compreendido na Logoterapia, ou seja, como um dos dinamismos fundamentais da pessoa, compreendido como a capacidade do homem de dirigir-se para algo além de si mesmo, seja uma tarefa a realizar, uma pessoa a quem amar ou um sofrimento a superar.

[2] Viktor Emil Frankl (1905-1997) foi um psiquiatra austríaco, fundador da Logoterapia, considerada a Terceira Escola Vienense de Psicoterapia. A Logoterapia se fundamenta em três pilares: a liberdade da vontade, a vontade de sentido e o sentido da vida. Para Frankl a principal motivação do ser humano é a busca por um sentido em sua vida.

[3] Em Busca de Sentido: Um Psicólogo no Campo de Concentração – Editora Vozes, 2015

[4] Em Busca de Sentido: Um Psicólogo no Campo de Concentração – Editora Vozes, 2015

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